Seminu, no meio do palco, Jefferson Casimir, de 24 anos, profere seguidos tapas no braço, bate no peito, e eleva o tom da voz, claramente inconformada. O texto, protagonizado em crioulo, uma das três línguas que o haitiano domina, é rapidamente abafado por colegas que invadem o ato entoando: “Ninguém sabe quem sou eu, também já não sei quem sou, eu bem sei que o sofrimento, de mim até se cansou” – trecho de “Imitação”, música de Juçara Marçal.

A encenação faz parte de um exercício da oficina de teatro do Grupo Satyros, fundado em São Paulo no final da década de 80, da qual Casimir é bolsista.

Exposta no corpo do aspirante a ator, que optou por se paramentar apenas da cueca, a mensagem não precisa de tradução simultânea.

Há sete meses no Brasil, Casimir conta que é vítima de racismo constantemente, e diz ter encontrado na arte uma forma de externar os preconceitos que aqui passou a sofrer.

“Acho que é mais forte deixar a minha pele exposta. Eu sou negro, somos todos humanos. Quero muito que as pessoas olhem como somos todos iguais”, explica.

Ele foi um dos 12 haitianos selecionados entre 70 candidatos que participaram da peça “HaitiSomos Nós”, montagem feita pelo grupo paulista para debater a realidade de tais imigrantes no país. Em cena, narravam histórias acompanhados por outros atores brasileiros, dentre eles Letícia Sabatella e Maria Casadevall.

Os quatro meses de projeto foram concluídos em agosto, em três apresentações na galeria Olido, no Centro da cidade. E deram outro significado a permanência de Casimir no Brasil.

Destaque entre os atores amadores, e disposto a investir tempo na carreira que sempre desejou exercer, ele ganhou uma bolsa de estudos da Companhia, que ajudou a aplacar a tristeza de viver longe de casa, e dentro de uma sociedade que o exclui e maltrata pela cor.

“No começo, com o racismo que sofri, estava com vontade de voltar para o Haiti. Agora, com a oportunidade, quero ficar.”

Jefferson foi destaque em pela sobre o Haiti e ganhou bolsa do grupo Os Satyros (Foto: Marcelo Brandt/G1)Jefferson foi destaque em pela sobre o Haiti e ganhou bolsa do grupo Os Satyros (Foto: Marcelo Brandt/G1)

Casimir conta a dificuldade que tem, como negro e estrangeiro, de pedir informações na rua. “As pessoas me veem e já saem correndo. Eu não entendo. O Brasil é um país negro. Como isso acontece? No Haiti, nunca passei por isso. É vergonhoso para mim. No Haiti não existe diferença de cor.”

Para ele, seria (somente) xenofobia se ao menos o deixassem falar. “Mas não consigo nem perguntar. É racismo. É triste, e dói, dói profundamente.”

Novos caminhos
Fã de Will Smith e Jackie Chan, Casimir deixou Porto Príncipe para morar com a tia no Cambuci, na Zona Sul, após ser ameaçado por bandidos que querem tomar um terreno herdado por sua família. Em 2012, seu pai foi baleado em uma das inúmeras tentativas de assassinato por conta da terra. Parte dos parentes migrou para os EUA. Ele optou pelo Brasil pela facilidade do visto.

À época, tinha terminado o ensino médio, e pensava em cursar medicina ou direito. Privada, a faculdade seria custeada pelo pai, que precisou investir em cirurgias e tratamento para recuperar das lesões que os tiros provocaram em seu braço.

A mudança forçada pela tragédia o ajudou e redefinir suas ambições profissionais. “Existe dentro de mim um amor pelo cinema, pelo teatro. Desde pequeno eu gosto disso. Mas lá no Haiti não tem muito investimento nessa área”, explica. Hoje, sonha em voltar a morar perto dos pais e irmãos, e quer se tornar “um grande ator internacional”.

Jefferson no camarim da companhia Os Satyros, no Centro de SP  (Foto: Marcelo Brandt/G1)Jefferson no camarim da companhia Os Satyros, no Centro de SP (Foto: Marcelo Brandt/G1)

Daiane Farias de Brito, de 28 anos, atriz e professora do Os Satyros, acompanhou a seleção e montagem da peça sobre o Haiti. Atualmente, ministra aulas do módulo performativo da oficina. A comunicação com Casimir, um dos poucos estrangeiros e o primeiro haitiano da Companhia, é feita em um bem bolado que mistura mímica, o fracês que ela diz arranhar e o inglês que um outro aluno oferece para ajudar.

A educadora diz que sentiu, logo no primeiro teste, que Jefferson “tinha que ficar”. E reconhece no aluno um talento “clownesco”: “Ele tem um ‘time’ para comédia incrível que muitas pessoas que estudam teatro há anos não têm”, analisa.

Ao ouvir o elogio, Casimir inclina a cabeça sugerindo modéstia, mas escancara o sorriso ao explicar: “O público depende de mim para ficar feliz. Gosto muito de fazer rir, muito”, diz, fazendo caber trecho de outra canção de Juçara Marçal: “Com um sorriso derrubo uma tropa inteira, mesmo que na dianteira sombra venha me seguir.”

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